Caixas Agrícolas. Porque nem só de gigantes deve ser feita a banca nacional

Artigo de opinião publicado no jornal de economia Online “Dinheiro Vivo” em 11 de março de 2021, por MANUELA NINA JORGE, Presidente da Agrimútuo – Federação Nacional das Caixas de Crédito Agrícola Mútuo




A pandemia da desigualdade também 
se combate com financiamento de proximidade, assente nos laços comunitários – legado e futuro das Caixas Agrícolas 



Há umas semanas, uma empresa de consultoria de negócios defendeu um movimento de fusões no sector bancário português e a criação de um grande banco nacional. Não pretendendo questionar a bondade e o altruísmo dessa proposta – ou o posicionamento comercial da consultora em questão junto de potenciais protagonistas a quem uma operação deste tipo possa interessar – creio que será da maior importância sustentar que a diversidade e a pluralidade são benéficas para o sistema financeiro e, sobretudo, para a dinâmica de um sistema que se deseja saudavelmente concorrencial e competitivo. Isso mesmo foi referido pelo Presidente da Associação Portuguesa de Bancos que, sobre o tema fusões, referiu recentemente que “o nosso país necessita de um sistema bancário com bancos sediados em Portugal, com capacidade competitiva face aos seu pares europeus”. 

No fim do dia, são os clientes de serviços bancários – particulares e empresas – que têm que estar em primeiro lugar. O sistema financeiro não é uma finalidade em si mesmo, desempenhando um papel social e económico essencial para as pessoas, para as famílias e para as empresas. É evidente que fusões e concentrações na banca podem ter efeitos benéficos para o financiamento da economia como um todo, representando, em simultâneo, ganhos de gestão para os acionistas. No entanto, há processos que acarretam indesejáveis riscos de perda de identidade nacional. O alerta de Murteira Nabo vai nesse sentido, quando há dias afirmou que os “bancos espanhóis vão liderar consolidação”. Portugal deve aspirar a ser mais do que uma filial da banca espanhola e manter a sua estratégia própria e independência financeira.

Vale a pena, por isso, evidenciar que não só de gigantes ou de grandes marcas deve ser feita a banca nacional. Nem sempre uma Instituição bancária com elevada dimensão é uma instituição sólida. O passado está cheio de exemplos nesse sentido. Escrevo este texto não contra supostas concentrações na banca (que poderão fazer sentido e que têm que ser avaliadas por quem de direito), mas sim em defesa de um mundo que conheço bem, que é o da concessão de crédito e de financiamento à economia de proximidade, essencialmente de base agrícola, mas também a projetos de green finance, a empreendedores, a start-ups e a fintechs locais. Ou seja, se pode haver caminho para a consolidação da banca nacional, também há seguramente caminho para uma banca próxima, sólida e autónoma, capaz de apoiar os sonhos que nascem do talento local. O país e os projetos locais ganham com diversidade. É isso que pretendo sublinhar. As Caixas de Crédito Agrícola independentes são instituições de crédito locais e regionais, fortemente capitalizadas com uma grande história (a maioria, centenária). São organizações do setor cooperativo, que constituem uma alternativa à banca comercial, que se preocupam muito com as comunidades nas quais estão inseridas e que, tendo em si impressas os valores fundacionais do mutualismo e do cooperativismo agrícola, assentam o seu esforço e trabalho no reforço da atividade comum, na solidariedade e dinamização económica das comunidades locais. Atualmente existem cinco Caixas de Crédito Agrícola Mútuo autónomas e independentes, com cerca de meia centena de agências em oito municípios que apresentam, global e consistentemente ao longo dos anos, contas e resultados francamente positivos e que partilham serviços. São elas as Caixas de Crédito Agrícola do Bombarral, Chamusca, Leiria, Mafra e Torres Vedras. Instituições com autonomia, com equipas de gestão comprometidas com o território e as suas gentes, com histórias centenárias, que apoiam os negócios localmente. São instituições fortemente capitalizadas, que não têm pressão do acionista. Não queremos ser um banco nacional, queremos ser aquilo que sempre fomos: excelentes bancos locais, depositários da confiança dos nossos associados através do elevado valor dos depósitos que nos estão confiados e salvaguardando sempre a solidez financeira. Estas cinco Caixas movem-se por fazer a diferença nos locais onde estão implantadas, apoiando os negócios de forma prudente e racional, com exigentes critérios de ponderação de risco. Tipicamente, a estrutura de balanço destas Caixas independentes caracteriza-se por uma forte liquidez, por uma estrutura de custos controlados, pelo predomínio claro dos depósitos de clientes como principal recurso de financiamento e por uma comprovável robustez do balanço – traduzida em margens financeiras confortáveis e de produto bancário e rácios de solvabilidade muito confortáveis (dos mais elevados em todo o sistema de banca de retalho a nível nacional). Este legado cooperativo de proximidade, autónomo e independente – que, sublinhe-se, triunfou com distinção sobre todas as crises financeiras e sobre as diversas intervenções externas de credores que o país conheceu – tem sido um ator essencial do desenvolvimento local e comunitário. As Caixas Agrícolas independentes são, aliás, reconhecidamente, um travão à desigualdade territorial, tanto social como económica. Assim, sem prejuízo do que possa vir a acontecer ao nível da concentração na banca, fica evidente o espaço para o crescimento deste modelo, sobretudo num contexto de recuperação pós-pandemia. O país deve aproveitar este modelo de banca cooperativa de proximidade para o apoio aos negócios locais, destacando aqueles que são de base agrícola, que tão bem se têm comportado como constatamos pelo crescimento das exportações em contraciclo com a maioria dos setores de atividade económica, mas também negócios inovadores, com incorporação tecnológica, escaláveis e focados na sustentabilidade. Defendo que há um enorme trabalho e potencial ainda por realizar em favor da desconcentração, de modelos de concessão de crédito na sua versão cooperativa, junto das pessoas, junto dos negócios, do interior e do país real. Sim, há futuro numa banca próxima e autónoma. Que pode cooperar entre si, salvaguardando a sua independência, para prestar melhores serviços e apoiar, com tecnologia e soluções inovadoras, o crédito às empresas. O país só tem a ganhar com a diversidade e a pluralidade de alternativas e soluções. 




          Manuela Nina Jorge – Presidente da Agrimútuo – Federação Nacional das Caixas de Crédito Agrícola Mútuo